Quem nos visse aquele dia, sentados numa sala do 13º andar do prédio que viria ser conhecido como do Ayrton Senna, não imaginaria os acontecimentos dos dois últimos anos.
Estávamos, eu e meu sócio, esperando uma reunião que já demorava mais de 4 horas para começar, quando nosso contato entrou na sala e pediu para que a acompanhássemos até uma outra sala.
Tínhamos informação de que o Ayrton estava viajando e que tudo dependia de que ele desse sua aprovação para que o projeto começasse a se mover, mas tínhamos consciência de que essa reunião também seria de muita importância, embora sem saber muito bem por que.
Passamos pelo hall, entramos por uma porta e demos num corredor. Passamos pela cozinha, e então demos com outra porta. Quando a porta se abriu, lá estava ele de pé, encostado na mesa, braços cruzados e um sorriso no rosto.
Dois anos antes, eu produzia desenhos animados, histórias em quadrinhos, criava personagens para peças publicitárias e já tinha oito anos de profissão, quando veio a idéia de fazer um personagem sobre o emergente ídolo brasileiro, que ganhava tudo na F1.
Eu era um fã de F1 e acompanhava os campeonatos desde 1972, quando Emerson Fittipaldi sagrou-se campeão mundial pela primeira vez. Era o início de uma série de oito títulos mundiais ganhos por um brasileiro.
Sentado na mesa de minha sala eu esbocei os primeiros traços do Senninha, pesquisando imagens do Ayrton em revistas e artigos de jornal. Eu já tinha em mente como ele deveria ser, se comportar, vestir. Era necessário somente fazer com que se parecesse com o Ayrton.
Estava pronta a parte mais divertida do processo.

Claro que não levaríamos apenas desenhos até o Ayrton. Elaboramos, então, um projeto para que o Senninha se tornasse um sucesso. Precisaríamos de um estúdio, com profissionais de várias áreas para que o Senninha ganhasse vida, tanto nas histórias como no mundo dos negócios. Era preciso que o Senninha fosse viável. Um investimento, não um gasto; e que tivesse alma, se comunicasse com as crianças, passasse uma mensagem.

Definido o projeto. Faltava levá-lo ao Ayrton.

Era 27 de Janeiro de 1991. Nunca havia tido contato algum com o Ayrton ou com sua equipe. Telefonamos e conseguimos marcar uma reunião com seu pai, Sr. Milton.

Com natural desconfiança ele nos ouviu, apreciou o projeto e, finalmente viu as ilustrações dos personagens. A simpatia e carisma dos personagens imediatamente o cativaram. A seriedade do projeto acalmou suas desconfianças. O projeto foi mostrado a outras pessoas.

A idéia inicial fora aceita. O projeto Senninha nascia.

Era necessário adaptá-lo à estrutura do Ayrton e, posteriormente, adaptar a estrutura ao projeto. O Ayrton precisava ver, compreender, gostar e aprovar a idéia.

Ficamos de levar o projeto para os responsáveis dentro da empresa do Ayrton, que se profissionalizava e se expandia.

Então o projeto ficou parado. Não andava. Não foi mostrado ao Ayrton. A equipe, encarregada de filtrar os assuntos que chegavam ao Ayrton, sem saber que o Sr. Milton já havia visto, e gostado, do projeto, não deu continuidade. Ficamos esperando que algo acontecesse por dois anos.

Fevereiro de 1993. Tomamos, então, a decisão de contatar novamente o Ayrton, através de sua secretária. Teríamos que ir direto a ele, sem intermediários, ou o projeto morreria. Deixamos com ela o projeto, os desenhos. Ela ficou de levar o projeto adiante, mas pensou que seria melhor levar para a equipe, que levaria ao Ayrton (nesse caso voltaríamos à estaca zero).

Deixou os desenhos sobre sua mesa. Ela levaria o projeto no dia seguinte. O Ayrton estava no Brasil, a equipe poderia mostrar tudo a ele.

No final deste dia, o Ayrton passou pela mesa da secretária e viu os desenhos. Surpreso, perguntou do que se tratava. Finalmente o projeto chegava a suas mãos.

Aprovação instantânea! O Ayrton adorou os desenhos baseados em sua pessoa. Começava a temporada de F1 de 1993. O Ayrton viajou para a Europa.

Fomos chamados. Começava uma maratona de reuniões para apreciação do projeto, verificação de viabilidade, definição de custos, investimentos. Tudo deveria estar delineado quando o Ayrton voltasse da Europa para o GP Brasil.

Tudo estava caminhando muito bem. Estávamos ansiosos pela volta do Ayrton, que ainda não havíamos encontrado pessoalmente.

Em março, fiz um desenho do Senninha junto ao Ayrton e dei de presente pelo seu aniversário. Na verdade deixei para ele com a secretária.

Braços cruzados, sorriso no rosto, e meu desenho, presente de aniversário sobre a mesa.

Essa a imagem do meu primeiro encontro com ele, em sua sala, no 13º andar do Condomínio Vari. Curiosamente não me lembro a data precisa.

Estendeu-me a mão e me parabenizou pelo projeto, os desenhos. Agradeceu o presente.

Simpático, mais baixo do eu imaginava. Braços mais fortes do que pareciam na tv e nas fotos.

Encontrei o ídolo, conheci o homem, arrumei um amigo.

A partir daí esteve sempre presente nas decisões sobre o projeto.

No entanto, quando um dia perguntei como faríamos para que aprovasse as histórias, ele me respondeu que não aprovaria. Eu aprovaria. Ele dirigiria os carros de F1 e eu aprovaria as histórias e materiais do Senninha. Ele me disse: “Eu venço nas pistas, é nisso que sou bom. Trate de vencer com o Senninha. Nisso você é bom!” Ele era assim: delegava poderes e cobrava resultados. Senti a responsabilidade de trabalhar com um campeão. E gostei.

Firme nas decisões, delicado no trato com as pessoas. Esse o Ayrton que passei a conhecer.

Tocamos o projeto. Levamos meses para deixar tudo pronto. Registro de marcas pelo mundo, busca de patrocínio, preparação do estúdio, contratação de pessoal. Tudo foi sendo feito até o final de 1993. Em Fevereiro de 2004 o Senninha foi lançado oficialmente numa entrevista coletiva (Foto) onde tive uma experiência apavorante, enfrentando um batalhão de fotógrafos e repórteres. O Senninha passava a existir nos corações e mentes dos brasileiros. Em três corridas o Ayrton se encarregou de mostrá-lo ao mundo, usando sempre nossa camiseta sob o macacão de corrida.

Para ele o Senninha seria um meio de comunicação com as crianças. Seria seu porta voz, com uma linguagem simples, pura, alegre.

Quando criei o personagem, imaginei que ele seria essa voz para depois de sua aposentadoria. Quando estivesse fora das pistas, o Senninha continuaria passando sua mensagem, suas idéias, uma filosofia.

A história provou que eu estava certo. O Senninha tornou-se uma parte viva do Ayrton após seu desaparecimento. O Senninha é capaz de discutir, pensar e refletir os acontecimentos contemporâneos, baseado nos ideais, no legado do Ayrton. Esse o sucesso maior do personagem!

19 de Abril de 1994. Toca o telefone em minha mesa. Do outro lado da linha uma voz simpática me cumprimenta e pergunta como estou. Surpreso pergunto de onde ele fala. Da Inglaterra Ayrton ligou para me tranqüilizar. Para me dizer que, apesar de estar distante, treinando, correndo, estava sempre à disposição se eu precisasse de qualquer coisa.

- “Pode me ligar a qualquer hora. Estou aqui, mas penso sempre em nossos projetos. Hoje o Senninha já é uma prioridade! Não deixe de me ligar!”

Essa foi a última vez que nos falamos.